Os ataques e atentados com
explosivos que causaram a morte de pelo menos 86 pessoas na Nigéria desde a
noite de Natal deram uma nova dimensão às tensões entre cristãos e muçulmanos
neste país.
Os confrontos ocorridos no Natal
no centro da Nigéria, onde convivem cristãos e muçulmanos, deixaram 86 mortos,
superando em mais que o dobro as cifras fornecidas até agora, segundo informou
nesta terça-feira uma agência governamental.
A polícia, que informou sobre 35
mortos (32 na sexta-feira e três no domingo) em Jos, continua afirmando que o
saldo é muito menor que o fornecido por esta entidade governamental, a Agência
Nacional de Situações de Emergência, que insiste que seus dados, obtidos em
hospitais, são corretos.
Uma onda de enfrentamentos foi
registrada no fim de semana na Nigéria e três igrejas foram atacadas no norte do
país.
Jos, capital do estado de
Plateau, fica no meio do caminho entre o norte predominantemente cristão e o
sul, habitado majoritariamente por comunidades cristãs.
Um grupo islamita, que pode ser a
seita Boko Haram, reivindicou nesta terça-feira em um site os atentados.
O grupo, que promoveu uma
sangrenta sublevação em 2009, advertiu que continuará atacando os "ímpios e seus
aliados".
"Nações do mundo, saibam que os
ataques de Suldaniyya (Jos) e Borno na véspera do Natal foram cometidos por nós,
Jama'atu Ahlus-Sunnah Lidda'Awati Wal Jihad", diz a declaração postada na
internet.
O nome do grupo significa "Povo
consagrado aos ensinos do Profeta para a propagação da guerra santa"
(Jihad).
Os atentados marcam "o começo das
vingança depois das atrocidades cometidas contra os muçulmanos nessas regiões e
no país", afirma o comunicado.
"Seguiremos atacando os ímpios e
seus aliados e todos aqueles que os ajudam até o triunfo de Alá", conclui o
texto.
O Papa Bento XVI denunciou no
domingo a "violência absurda" contra cristãos depois dos ataques contra cristãos
nigerianos.
Os confrontos intercomunitários
deixaram nos últimos anos centenas e mortos em Jos e seus arredores. No entanto,
os atentados a bomba ocorridos na sexta-feira passada são os primeiros desse
tipo. O uso de explosivos representa uma intensificação da crise, segundo Chidi
Odinkalu, diretor do programa africano da Open Society Justice Initiative, uma
ONG que promove os valores democráticos.
Grupos de defesa dos direitos
humanos nigerianos afirmam que mais de 1.500 pessoas foram vítimas da violência
entre cristãos e muçulmanos apenas este ano.
As eleições na Nigéria estão
marcadas para o mês de abril, e observadores internacionais já alertaram para um
aumento da violência ligado à aproximação do pleito.
O presidente nigeriano, Goodluck
Jonathan, prometeu no sábado que o governo faria todo o possível para que os
responsáveis pela morte de "nigerianos inocentes, tanto cristãos quanto
muçulmanos", fossem levados à justiça.
Mas, para muitos militantes dos
Direitos Humanos, o Estado nigeriano é incapaz de levar ante a justiça os
autores da violência em Jos, seja por razões políticas ou outra qualquer
razão.
Para os observadores, a tensões
nigerianas são o resultado de uma complexa mistura de problemas étnicos,
religiosos, políticos e econômicos.
O colonialismo britânico e sua
herança de fronteiras artificiais também têm um papel importante na
situação.
Na região de Jos, os Beroms e
outras etnias cristãs se julgam os autóctones da região, enquanto que os
muçulmanos Hausas e Peuls são tidos como os "colonos", mesmo que tenham chegado
ao centro do país há várias décadas.
Os Hausas se instalaram na região
de Plateau (centro) para trabalhar na indústria do estanho há mais de um século.
Os Peuls, que são nômades, chegaram à zona buscando pastos para alimentar seu
gado.
Estes dois grupos étnicos se
mesclaram para depois combater os Beroms, a fim de tomar o poder político e
econômico da região.
Os observadores opinam que muitos
políticos utilizam esta situação incitando as diferentes etnias à violência e
recrutando jovens sem emprego e mergulhados na pobreza.
Fonte e foto: AFP