
Voyeurismo e coprofolia podem explicar o comportamento misterioso do personagem
Camila Neumam, do R7
A revelação de Gerson, personagem de Marcello Antony na novela Passione, acabou com o tão misterioso segredo guardado a sete chaves em seu computador. Cheio de culpa, ele contou ao psicanalista que sente grande prazer ao assistir cenas de sexo ocorridas em locais sujos e fedorentos, seja pessoalmente ou pela internet.
O depoimento repleto de referências, de sexo gay, prostitutas, travestis e traços de escatologia (cenas que ele mesmo chama de “nojentas”) deixou muita gente na dúvida. Para entender o que se passa na cabeça do perturbado piloto, o R7 entrou em contato com psicanalistas para desvendar esse quebra-cabeça.
Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), explica que Gerson pode ser enquadrado como alguém que tem multi-parafilia, ou seja, portador de múltiplos transtornos sexuais. Um deles seria a coprofilia (excitação sexual em contato com fezes e urina), mesmo que de forma tênue, quando ele diz ficar excitado ao sentir o odor do sexo feito em lugares bem sujos, de banheiros públicos às zonas de prostíbulos.
- Ia aos inferninhos mais fétidos da boca do lixo, eu pagava para a uma prostituta fazer sexo na minha frente, mas eu não queria participar, eu queria sentir o cheiro, ver, aquela sensação de proibido, de perigo.
Gerson também tem características de um voyeur, já que revelou ter prazer sexual ao observar pessoas em situações intimas.
- Eu nunca tive atração por homens, nunca fui homossexual, mas o cheiro fétido dos banheiros públicos me atraia. Eu via o que acontecia lá dentro, eu não queria participar, mas eu via, olhava, fascinado. Eu tinha pavor que me descobrissem, mas eu não conseguia sair dali, aquele cheiro, aquela atmosfera suja, proibida, mexia muito comigo, me fascinava.
Saadeh compila essas situações para descrever o perfil do piloto.
- A questão visual, do aroma de banheiro público com dois homens transando, e a questão de poder ser pego são características que podem vir isoladas, mas no caso dele vêm juntas. A sexualidade dele é bem confusa, porque ele não se considera homossexual, mas se excita.
No entanto, o especialista explica que o comportamento só pode ser considerado patológico se for frequente e passar a ser a única fonte de prazer sexual, causando culpa e angústia à pessoa, por não conseguir parar. Outra característica da compulsão é perder interesse sexual pelo parceiro fixo ou por outros. Caso contrário, não passa de fantasia sexual que pode ser aplicada para apimentar relações.
No caso de Gerson, ele fecha seu depoimento deixando claro que mantinha o hábito.
- No computador eu descobri que podia me realizar sem perigo nenhum. Entrei em todos os sites de sexo que tinha, um me levava ao outro. Pessoas que me mandavam imagens, contavam suas histórias, me erotizavam de uma forma tão completa, tão forte. Eu fui colecionando uma enormidade de cenas escabrosas, sujas, doentes, tudo me excita. Quanto mais sujo, nojento, pavoroso, mais me perturba e mais me dá prazer.
Novela tropeça no roteiro
Casos como o de Gerson existem e podem ser mais comuns do que se imagina, segundo Cida Lessa, psicóloga e especialista em sexualidade humana. Ela classifica o comportamento dele como uma típica compulsão sexual, isto é, quando a pessoa só consegue ter satisfação observando imagens pornográficas, muitas vezes acessadas pela internet.
- A maneira como está sendo retratado [o personagem] é muito fiel, porque existem muitas pessoas com esse tipo de compulsão. E como qualquer coisa que fuja do controle, faz essas pessoas sofrerem demais. É algo muito solitário, dá vergonha e eles não sabem como tratar, quem procurar.
Já para Saadeh, alguns dados do comportamento do filho de Bete Gouveia não batem com a realidade. Ele questiona como o personagem conseguiu transpor sua compulsão para a internet, se são os odores a sua grande fonte de excitação.
- Você percebe que é um gênero novelístico mesmo, porque se ele gosta de cheiro e do risco de ser descoberto, isso teria de estar presente. Mas a internet não tem cheiro. Neste caso, o risco de ser descoberto pode vir de filhos, mulher, marido, namorada ou namorado, mas é muito menor do que estar exposto no local onde tem o cheiro e tudo mais.
O mais natural, segundo o psiquiatra, seria que os fatos acontecessem na ordem inversa. Gerson criaria o hábito de acessar sites pornográficos e depois, para completar sua compulsão, iria ver as mesmas cenas in loco.
- A evolução do transtorno geralmente acontece quando se tem o desejo, depois acessa isso pela internet, visualiza imagens e se passa a frequentar os banheiros públicos.
O abuso sexual sofrido pelo personagem na infância pode estar ligado ao seu comportamento compulsivo, segundo a psicóloga. No imaginário do piloto, mesmo que inconsciente, pode haver relação entre o sexo com a empregada feia e a prostituta sofrida.
- Tem situações que ele assume diante desse vicio que estão ligadas à infância. Ele mantinha relações com a empregada que era feia e o abusava, o que era proibido.
Saadeh não concorda com essa hipótese.
- Ser abusado por mulher não tem relação direta nenhuma com esse comportamento. O abuso na infância pode dar em uma série de complicações afetivas e sexuais entre adultos, mas não é tudo que se justifica.
Tratamento
Confirmada a compulsão, ambos concordam que há chance de controlá-la com psicoterapia e medicamentos que diminuem a excitação, como antidepressivos e estabilizadores de humor. Mas não é um tratamento simples, nem rápido. Os remédios podem ser descartados ao longo do tempo, mas a terapia tende a durar mais por envolver muitas questões emocionais.
O maior desafio, entretanto, é a pessoa querer se tratar. Isso geralmente acontece em situações limites, quando ela é pega pela polícia ou parentes, diz o psiquiatra.
- Por perceber que seu comportamento sexual é fora do padrão, a maioria das pessoas tem muita vergonha de buscar ajuda. Isso significa refletir e transformar o tesão que elas têm, parecendo que elas vão ficar sem sexo.
O tratamento pode ser realizado por psiquiatra, que dará a medicação, e pelo psicólogo, que fará a orientação.
R7